Segunda Geração do Romantismo no Brasil

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Segunda Geração do Romantismo no Brasil Conhecida como ultrarromantismo, a segunda fase do Romantismo no Brasil ficou caracterizada pela idealização do amor e da mulher amada
Por Mariana Rigonatto
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Observe o poema de Casimiro de Abreu:

Desejo – Casimiro de Abreu
 

Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
— A vida, o céu, a razão!

É possível perceber que o autor possui uma idealização do amor e da mulher amada, não é mesmo? Essas são algumas das características das produções da segunda fase do Romantismo no Brasil, ou seja, a mulher para os românticos desse momento literário era alguém descrito como um ser inatingível, com qualidades angelicais e perfeitas, alguém que despertava o desejo amoroso do eu lírico, mas esse desejo jamais se realizaria por pertencer a um plano intocável.

Como representante dessa geração do Romantismo, Casimiro de Abreu traz em sua obra outras características marcantes desse período. Veja outro poema do mesmo autor:

MEUS OITO ANOS – Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Nesse poema, percebe-se que o autor possui uma fuga da realidade por meio de uma volta ao seu passado pessoal, ou seja, por não aceitar a realidade que se apresenta, há um escapismo psicológico.

Essas e outras características da segunda geração romântica estão diretamente relacionadas com o momento histórico no qual o país se encontrava. Na década de 1850, houve um rompimento com o nacionalismo exagerado, praticado pelos autores da primeira geração. Os jovens não se identificavam mais com o ideal da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade), o que os levou a uma postura pessimista e egocêntrica, tornando-se indiferentes aos problemas sociais. Essa postura ficou conhecida como “mal do século”.

Essa visão voltada para si mesmo incentivava um estilo de vida mundano regado a bebida e cigarro. Além disso, a morte era tida como única solução para a realidade que tanto incomodava. Tais posturas foram fortemente influenciadas pelo poeta inglês Lord Byron, que valorizava um estilo de vida boêmia, noturna, voltada para os prazeres do mundo e para uma visão de mundo egoísta, narcisista, pessimista, angustiada e satânica. Por causa desse estilo de vida adotado pelos autores brasileiros, muitos morreram antes dos 20 anos de idade.

Essa geração ficou conhecida também como ultrarromantismo, exatamente pela presença de um sentimentalismo exagerado. Assim, as características que estão presentes nessa fase são:

a) Liberdade de criação e valorização do conteúdo em detrimento da forma: rompimento com os padrões clássicos anteriormente estabelecidos, usando o verso livre para as suas produções;

b) Pessimismo – o artista acha impossível realizar seus desejos. Há a presença de tédio, morbidez, sofrimento, pessimismo, negativismo, satanismo, masoquismo, cinismo e autodestruição;

c) Subjetivismo – o romântico utiliza-se de uma percepção individual para retratar a realidade em suas obras. Assim, suas palavras são carregadas de individualismo, emoção e fantasia;

d) Escapismo psicológico – por não aceitar a realidade como ela se apresenta, os autores românticos voltam ao passado, individual ou histórico;

e) Egocentrismo – prevalência do individualismo com o culto do “eu” interior;

f) Idealização do amor e da mulher amada: A mulher ora é descrita como anjo, virgem, angelical, ora como leviana, lasciva, lânguida;

g) Morte como fuga definitiva e solução dos problemas;

h) Sarcasmo e ironia;

Os principais autores dessa fase foram:

  • Álvares de Azevedo: Lira dos vinte anos; Noite na Taverna e Macário.

  • Fagundes Varela: Noturnas; Cantos e Fantasias e Anchieta ou O Evangelho nas Selvas.

  • Casimiro de Abreu: As Primaveras e A cabana.

  • Junqueira Freire: Inspirações do Claustro e Contradições poéticas.

Aproveite para conferir a nossa videoaula relacionada ao assunto:

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