Primavera de Praga

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Primavera de Praga A cidade de Praga foi palco da Primavera de Praga e foi invadida por tropas soviéticas em agosto de 1968
Por Daniel Neves Silva
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A Primavera de Praga é o nome que se dá ao período de oito meses (janeiro a agosto de 1968) em que se iniciou na Checoslováquia (também escrito como Tchecoslováquia) um movimento de reformismo do sistema comunista implantado no país. Essa tentativa de reforma do país foi conduzida por Alexander Dubcek e amplamente apoiada pela população. Os acontecimentos na Checoslováquia acabaram precipitando a invasão do país por tropas enviadas pela União Soviética em agosto de 1968.

Contexto histórico da Primavera de Praga

Em 1968, a Checoslováquia era uma nação que possuía um regime comunista, estabelecido após o final da Segunda Guerra Mundial e por influência direta da União Soviética. É importante mencionar que a antiga Checoslováquia existiu até 1992, quando deu origem às atuais Tchéquia (também escrito Chéquia) e Eslováquia.

Leia também: O que é comunismo?

O sistema comunista aplicado na Checoslováquia possuía as características comuns a todas as nações comunistas da Europa Oriental durante o período: um regime de censura estabelecido, economia planificada, culto à personalidade do líder da nação, instituição de partido único (o comunista) etc.

Apesar disso, é importante mencionar que o sistema estabelecido na Checoslováquia resultou de uma escolha popular. O historiador britânico Eric Hobsbawm exemplifica a força do Partido Comunista (PC) na Checoslováquia ao afirmar que, em 1947, ele recebeu 40% de votos|1|. Apesar disso, a partir da década de 1950, uma grande insatisfação com o regime comunista espalhou-se pela Europa Oriental e gerou reflexos na Checoslováquia a partir da década de 1960.

Como aconteceu a Primavera de Praga?

Os eventos da Primavera de Praga começaram a se desenrolar na Checoslováquia a partir de 5 de janeiro de 1968, quando Alexander Dubcek assumiu o cargo de primeiro-secretário do PC da Checoslováquia. Dubcek era uma figura importante do PC na Checoslováquia e sua família possuía um histórico de colaboração com o regime comunista de Moscou.

Dubcek tornou-se o arquiteto do que ficou conhecido como Primavera de Praga ao defender medidas reformistas para o comunismo implantado no seu país. Dubcek chamava suas ideias reformistas de “socialismo com rosto humano” e, basicamente, defendia a democratização do comunismo em seu país.

As ideias de reforma e democratização do comunismo na Checoslováquia tiveram ampla repercussão na sociedade local e, a partir daí, a mobilização popular em defesa da realização das reformas foi intensa. O desejo por reformas era explicado por dois fatores: primeiro, havia um descontentamento popular com os rumos que o comunismo havia tomado na Checoslováquia. Além disso, a minoria étnica do país (os eslovacos) via na democratização do regime a única forma de conquistar mais protagonismo político.

A adesão da população gerou a mobilização dos movimentos estudantis na Checoslováquia (o que coincidiu com a efervescência dos movimentos estudantis em outras partes do mundo, como na França) e também gerou reflexos nos grupos de artistas e intelectuais do país. Houve inclusive um documento importante desse período que ficou conhecido como “Manifesto das duas mil palavras”, escrito por Ludvik Vaculik e que exigia a ampliação das reformas no país.

O apoio popular deu força à Primavera de Praga, o que se refletiu com as primeiras mudanças sendo estabelecidas no país. Uma mudança que deve ser destacada por sua simbologia e relevância foi o fim da censura que existia no país. Isso trouxe liberdade para a população e a imprensa, que passaram a poder manifestar livremente sua opinião contra ou a favor do governo.

O projeto da Primavera de Praga proposto por Dubcek e sua cúpula foi divulgado em abril de 1968 e ficou conhecido como Programa de Ação. Esse programa defendia a promoção da liberdade de imprensa e de culto religioso, a criação de um sistema pluripartidário para alcançar uma democracia socialista, a garantia do direito à greve etc.

O projeto estipulado na Primavera de Praga não defendia um rompimento da Checoslováquia com a União Soviética, pois no próprio “Programa de Ação” era reforçado o desejo de cooperação da Checoslováquia com a União Soviética e o Pacto de Varsóvia. Apesar disso, os acontecimentos em curso na Checoslováquia não agradaram a Moscou e nem a outros governos do bloco comunista.

Os regimes da Polônia e Alemanha Oriental e os governos das pequenas repúblicas que formavam a União Soviética temiam que os acontecimentos na Checoslováquia se espalhassem pelo bloco comunista e resultassem em movimentos que enfraquecessem a autoridade desses governos ou que fomentassem o separatismo.

Assim, o governo de Moscou passou a agir “diplomaticamente” no sentido de forçar o governo checoslovaco a pôr fim nas reformas ou ao menos reduzi-las a mudanças menos drásticas. Algumas reuniões foram realizadas entre os representantes dos dois governos, mas do ponto de vista de Moscou, as reuniões não foram muito bem-sucedidas.

Invasão da Checoslováquia e fim da Primavera de Praga

Assim, a União Soviética (que era presidida por Leonid Brejnev) optou por intervir militarmente na Checoslováquia. A reunião que decidiu pela invasão aconteceu no dia 16 de agosto de 1968. Poucos dias depois (no dia 20), mais de 500 mil soldados enviados por Moscou invadiram a Checoslováquia, equipados com milhares de blindados e centenas de aeronaves.

A ação das tropas soviéticas visava, principalmente, a prédios governamentais e estações de rádio. A resistência organizada pela população foi, em grande parte, pacífica, mas houve registro de confrontos da população local com as tropas soviéticas. Ao todo, registraram-se 25 mortes e 431 feridos em confrontos na ocupação soviética|2|.

A invasão soviética colocou fim às reformas democratizantes que estavam em curso na Checoslováquia, colocando fim à Primavera de Praga. Após isso, a carreira política de Dubcek foi arruinada, pois, em 1970, ele foi expulso do partido. A Primavera de Praga foi o símbolo de um desejo latente no bloco comunista por reformas que ampliassem as liberdades individuais. A partir do seu fracasso, o bloco comunista iniciou sua decadência. Nos anos seguintes, a união do bloco deveu-se exclusivamente à ação autoritária dos soviéticos.

|1| HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 385.
|2| SERRANO, Patricia Chia. Primavera de Praga. Para acessar, clique aqui [texto original em espanhol].

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