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História e crônica

Veja a importância da relação entre a história e a crônica e de como essa última pode ser importante para que se aprenda a gostar da primeira.

O cronista carioca João do Rio conseguiu “traduzir” a “alma das ruas” em suas crônicas * O cronista carioca João do Rio conseguiu “traduzir” a “alma das ruas” em suas crônicas *

Há várias formas de aprender história, ou melhor, há várias formas de tornar o aprendizado da história interessante. O conhecimento de artes em geral e da literatura, em especial, é uma dessas formas ou um desses caminhos. O gênero , que figura entre os vários gêneros da literatura, é de uma riqueza imensa para o entendimento da atmosfera de um determinado período histórico, sobretudo quando se trata da história de uma cidade.

A crônica existe desde o início da modernidade, mas só se afirmou mesmo como um tipo popular de literatura a partir do século XIX, quando cronistas passaram a escrever em colunas de jornais. No século XX, a coluna da crônica semanal ou diária passou a angariar um público cada vez mais vasto. Esse gênero contempla situações como festivais diversos, espetáculos de arte, como o teatro, espetáculos desportivos, como o futebol, e também situações banais, como fatos do cotidiano pessoal ou coletivo.

Um desses escritores, João do Rio, capturou bem o universo das ruas cariocas no início do século passado. Uma de sus coletâneas de crônicas mais famosas intitula-se “A alma encantadora das ruas” e, na crônica que leve esse título, João do Rio sentencia:

“A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias. Há trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida, corrida – são as ruas que os passos reboam, repercutem, parecem crescer, clamam, ecoam e, em breve, são outros tantos passos ao nosso encalço. Outras que se envolvem no mistério logo que as sombras descem – o largo de Paço. Foi esse largo o primeiro esplendor da cidade.” (Rio, João do. A Alma encantadora das ruas: crônicas. São Paulo: Companhia das letras, 2008. pp. 37)

Mais adiante, ele dá um exemplo de como a rua pode ser considerada algo vivo e latente, também dotada de particularidades que a tornam singular:

Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, ruas protestantes, ruas livre-pensadoras e até ruas sem religião. […] A rua Benjamin Constant está neste caso, é entre nós um tremendo exemplo de confusão religiosa. Solene, grave, guarde três templos e parece dizer com circunspecção e o ar compenetrado de certos senhores de todos nós conhecidos:

  • Faço as obras do Coração de Jesus, creio em Deus, nas orações, nos bentinhos e não só não sou positivista porque é tarde para mudar de crença. Mas respeito muito Teixeira Mendes.” ( Rio, João do. A Alma encantadora das ruas: crônicas. São Paulo: Companhia das letras, 2008. pp. 38-39)

Com esse exemplo da rua Benjamin Constant, podemos observar como o autor penetra na “psicologia das ruas”, humanizando-as, tornando-as mais que simples vias de tráfego. Essa “humanização” da banalidade cotidiana constitui farta fonte de estudo para história. Quer seja de uma cidade como o Rio de Janeiro, quer seja qualquer outra cidade, ou a história de uma nação inteira.

*Créditos da imagem: Commons


Por Me. Cláudio Fernandes

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