Valdenses

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Valdenses Igreja valdense localizada em Roma, na Itália *
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Os valdenses foram um grupo herético surgido na Europa, no século XII, a partir das pregações do mercador Pedro Valdo. Eles questionavam o poder e a riqueza da Igreja, e a heresia valdense chegou a espalhar-se por outras partes da Europa. Apesar da grande perseguição sofrida com a Inquisição, a Igreja não conseguiu erradicar essa heresia, como havia feito com as outras.

Origem da heresia

Os valdenses, também conhecidos como Pobres de Lyon, surgiram com as pregações de Pedro Valdo, um rico comerciante de Lyon. Um relato anônimo afirma que ele havia se convertido profundamente após realizar a leitura do Evangelho.

A partir daí, Valdo abandonou sua vida de comerciante, abriu mão de todas as suas posses, dando parte para sua família e doando o restante. Os historiadores afirmam que, antes disso, Pedro Valdo era um comerciante de sucesso e, portanto, possuía inúmeras posses. Após desfazer-se de sua fortuna, Valdo passou a vida peregrinando pela região para pregar os ensinamentos de Cristo. Ele trajava roupas simples e acreditava no voto de pobreza.

As pregações de Valdo renderam-lhe inúmeros seguidores, os quais incentivava à leitura do Evangelho na tradução que havia feito para o idioma local, o provençal. Os seguidores de Pedro Valdo, assim como seu mestre, fizeram voto de pobreza e, por isso, também utilizavam roupas simples. A respeito das roupagens dos valdenses, Laura Maria Silva Thomé afirma que “caracterizavam-se pelas roupas e calçados que usavam, um simples burel (túnica) de lã sem tingimento e sandálias de madeira, chamadas sabot, que lhes darão outro dos nomes por que serão conhecidos: saibatatis ou insaibatatis”|1|.

O grupo de fiéis liderados por Valdo logo passou a pregar por toda a região das proximidades de Lyon, porém, como não possuía a autorização eclesiástica do arcebispado local, foi proibido de continuar exercendo a atividade. Os valdenses haviam chamado a atenção do bispo de Lyon pelas críticas que faziam ao exagerado luxo do clero local e por pregarem a palavra de Deus em provençal, e não em latim, como fazia o clero. O arcebispo que proibiu as pregações dos valdenses foi Guichard de Lyon.

Pedro Valdo, então, deslocou-se para o Terceiro Concílio de Latrão, que estava sendo realizado em Roma, no ano de 1179. O objetivo de Valdo era obter a autorização eclesiástica diretamente com o papa Alexandre III. O papa decidiu que os valdenses só poderiam pregar novamente se obtivessem a autorização de Guichard de Lyon, que havia sido negada anteriormente. Na prática, o papa havia dito “não” para os valdenses.

Como os valdenses continuaram a pregar mesmo sem autorização, acabaram excomungados, ou seja, expulsos da Igreja pelo papa Lúcio III em 1184. Além de serem acusados de desobediência, os valdenses foram considerados heréticos pela Igreja por afirmarem não aceitar a autoridade do homem (nesse caso, a Igreja), mas apenas a autoridade de Deus, pois se baseavam em um versículo bíblico: Atos dos Apóstolos 5:29. Assim, a negação da autoridade da Igreja Católica foi o principal fator que levou à excomunhão dos valdenses.

Além disso, os valdenses negavam a existência do purgatório, condenavam os juramentos, afirmavam que a Igreja Católica estava condenada desde a morte do papa Silvestre I (papa de 314-335) e condenavam a pena de morte. A Igreja dos valdenses era organizada em bispo, presbíteros e diáconos, cada qual com uma função diferente no meio eclesiástico.

Enfraquecimento dos valdenses

Com a excomunhão, os valdenses passaram a atuar de maneira clandestina. A partir da instituição dos Tribunais da Inquisição, a perseguição aos valdenses tornou-se aguda e muitos foram julgados e condenados à fogueira pela Igreja Católica.

Durante esse período, existiram dois grandes focos dos valdenses: um na França e outro no Norte da Itália, principalmente na Lombardia. Com o passar do tempo, os dois focos valdenses passaram a ter divergências de doutrina, e o grupo italiano acabou rompendo mais drasticamente com a Igreja Católica e negando tanto a autoridade quanto muitos dos sacramentos do catolicismo. Na prática, os valdenses italianos mantiveram a crença apenas no batismo, na eucaristia (santa ceia) e na penitência.

A perseguição da Igreja Católica e a atuação na clandestinidade impediram que a heresia dos valdenses tomasse grandes proporções, como havia sido no caso dos cátaros. Apesar disso, o historiador Nachman Falbel afirma que os valdenses conseguiram “difundir-se não só no Piemonte e Sabóia [Norte da Itália], mas também na Alemanha meridional e Oriental, na Boêmia, na Morávia, na Polônia, na Hungria, na Itália Meridional, conquistando muitos adeptos”|2|.

Mesmo com a perseguição, a heresia dos valdenses sobreviveu e hoje possui igrejas instaladas em várias partes do mundo, como na Itália, na Argentina e no Uruguai. No Brasil, existe atualmente uma igreja valdense instalada no estado de Santa Catarina, na região sul.

|1| THOMÉ, Laura Maria Silva. Da ortodoxia à heresia: os valdenses (1170-1215), p. 93. Disponível aqui.
|2| FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo: Perspectiva, 1977, p. 63.

*Crédito das imagens: Denis Aminev e Shutterstock


Por Daniel Neves
Graduado em História

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