Tempo Natural e Tempo Humano

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Tempo Natural e Tempo Humano Ruínas do templo de Concordia - Agrigento, Sicília, Itália
Por Cláudio Fernandes
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Para compreender bem o que é História e os motivos que a tornam uma disciplina importante, é necessário refletir um pouco, em primeiro lugar, sobre a palavra que a alicerça, isto é, que dá a base para pensá-la. Essa palavra é “tempo”. É imprescindível entendermos o porquê de o tempo ser um termo, ou melhor, um conceito de suma importância para a História. Para tanto, traçaremos uma diferença entre o tempo natural e o tempo humano.

Quando estamos aprendendo Geografia ou Biologia, geralmente estudamos conteúdos que nos permitem conhecer a formação geológica do planeta Terra, os bilhões de anos que nosso planeta levou para chegar a esse estado em que hoje se encontra, a origem das primeiras formas de vida, os seres vivos de grande porte que habitaram o nosso planeta há milhões de anos, como os dinossauros, entre muitas outras coisas. Pois bem, todos esses assuntos dizem respeito ao tempo natural, o tempo que não faz parte necessariamente da experiência humana.

Quando começamos a estudar História, geralmente nos deparamos, nos livros didáticos, com os temas relativos à Pré-História, isto é, à vida dos homens primitivos. Esses temas costumam nos dar uma noção importante, mas ainda distante, do complexo processo que foi a passagem da pura natureza biológica para a humanidade (ou para a História). Essa inserção científica do humano na esfera do natural pode ser observada sobretudo quando lemos nomenclaturas que enquadram o ser humano dentro da escala evolutiva natural. O termo Homo sapiens exemplifica essa inserção.

Entretanto, o tempo humano (que é propriamente o tempo da História) é diferente do tempo natural por ser fruto da percepção que temos da ação do tempo natural sobre nós. Um exemplo dessa ação é a velhice; outro, o mais extremo de todos, é a morte; ou seja, o tempo humano caracteriza-se pela consciência de que estamos, a cada momento, caminhando para a finitude, para a morte. É a experiência radical da finitude, da consciência da morte, que lançou o homem primitivo à produção de cultura, ao desenvolvimento da religião e à organização política.

Nenhum outro animal possui essa distinção entre o tempo da natureza e o tempo da História, pois os outros animais apenas vivem, seguindo instintos e sem consciência de sua própria morte. Os seres humanos, ao contrário, desde as comunidades mais remotas começaram a construir urnas funerárias e mausoléus, além de desenvolverem formas de comunicação e representação artística, como as pinturas rupestres. Isso ocorreu em razão da necessidade de registrar em símbolos a experiência que os diferenciava dos outros animais e da própria natureza.

O desenvolvimento da linguagem e da escrita também segue essa necessidade de expressão e articulação dentro do tempo. Os verbos, que exprimem ações temporais, seja no passado, no presente ou futuro, resultam de milênios de tentativas de preservar a memória das experiências passadas e relacioná-las com as expectativas depositadas no futuro. A consciência que temos de nossa radical experiência do tempo nos fez, ao longo da história, produzir inúmeros documentos e monumentos que pudessem resistir ao tempo e dar aos homens futuros o testemunho do passado. Há um provérbio egípcio que exprime bem essa experiência radical que temos do tempo e a diferença que há com o tempo natural. Diz o provérbio: “O homem teme o tempo, mas o tempo teme as pirâmides”.


Por Me. Cláudio Fernandes

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