Percepção do tempo e tecnologia

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Percepção do tempo e tecnologia As facilidades proporcionadas pelo avanço tecnológico transformam nossa percepção do tempo
Por Cláudio Fernandes
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Você provavelmente já ficou ou, certamente, já viu alguém ficando bastante irritado por causa de situações banais relacionadas à tecnologia. Uma simples experiência com queda de energia elétrica ou com um problema de conexão da rede de internet proporciona uma frustração imediata em qualquer pessoa acostumada à vida urbana e dependente de dispositivos eletrônicos. Esse tipo de reação é característico da civilização moderna, isto é, das sociedades que se desenvolveram a partir das revoluções científicas e tecnológicas ocorridas nas idades moderna e contemporânea.

Com as grandes inovações técnicas que a ciência, nascida com Galileu Galilei e outros cientistas, ainda no século XVII, vem nos proporcionando, acabamos por nos acostumar a muitas facilidades e a uma forma de vida cuja praticidade é impensável sem o uso da tecnologia. A partir do processo de industrialização, começado na Inglaterra, no século XVIII, e que se alastrou pela Europa e, depois, pelo mundo todo nos séculos seguintes, a experiência da passagem do tempo começou a ser profundamente alterada.

A vida cotidiana anterior à Revolução Industrial era essencialmente agrária, com forte ligação ao cultivo da terra e à observação da passagem natural do tempo (estações do ano, período de chuva e seca etc.), cujo objetivo era prever períodos de escassez. A industrialização formou os grandes centros urbanos e exigiu uma dinâmica acelerada da vida cotidiana, nunca vista nas sociedades tradicionais. O uso de metais pela indústria pesada (metalúrgicas e siderúrgicas), tais como o ferro, possibilitou a criação de uma diversidade enorme de maquinários.

Os trens e os navios cargueiros que escoavam os produtos para regiões muito distantes num período de tempo bastante curto, bem como os bondes de tração elétrica, que funcionavam como transporte urbano para as pessoas, foram algumas das invenções que começaram a alterar a experiência que se tinha da passagem do tempo. A invenção do primeiro automóvel pelo alemão Karl Benz, em 1886, que era movido a gás e atingia uma velocidade média de 16 km/h, também contribuiu decisivamente para que a percepção do tempo, no cotidiano, ficasse progressivamente mais acelerada.


Um selo cubano de 1984, ilustrando os quase cem anos de fabricação do primeiro automóvel da história, criado por Karl Benz, em 1886.*

A experiência de um cotiano acelerado também se relaciona com a própria velocidade com a qual se inventam artefatos tecnológicos e, na mesma medida, outros tantos desses artefatos se tornam obsoletos. Podemos citar, por exemplo, dois dispositivos eletrônicos que eram considerados muito avançados há apenas vinte anos e que hoje se mostram ainda mais sofisticados. São eles: o telefone móvel (celular) e o computador pessoal.

Da década de 1990, esses dois tipos de utensílios eram considerados de acesso limitado, devido ao preço elevado, relacionado ao seu grau de sofisticação. Hoje em dia, temos variações do computador pessoal, como o notebook e o ultrabook, mais leves, portáteis e velozes. Os telefones celulares contam hoje com serviço de internet, câmera fotográfica e filmadora digital, além de alguns outros dispositivos que nos poupam um tempo que seria gasto, por exemplo, se tivéssemos que efetuar uma ligação, em via pública, nos antigos telefones públicos (“orelhões”).

Vários outros exemplos poderiam ser abordados, mas o essencial é conseguir perceber a profunda e íntima transformação que nossa civilização, tão afetada pela indústria, sofreu em sua forma de perceber o tempo e de sua capacidade de administrar suas expectativas a partir disso. O exemplo dado no primeiro parágrafo desse texto, da irritação com a queda da conexão de internet, ilustra a relação que há entre uma experiência acelerada de tempo (acesso rápido à internet) e uma expectativa frustrada que sempre é gerada pela falta imediata daquela facilidade.

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*Créditos da imagem: Shutterstock / EtiAmmos


Por Me. Cláudio Fernandes

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