Movimentos de resistência ao neocolonialismo na África

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Movimentos de resistência ao neocolonialismo na África O primeiro-ministro malgaxe, Rainilaiarivony, tentou resistir ao domínio francês *
Por Daniel Neves Silva
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A partir da segunda metade do século XIX, iniciou-se um processo de neocolonialismo que resultou na crescente ocupação da África pelas nações industrializadas, interessadas em impor uma intensa exploração econômica em várias regiões desse continente. Esse processo de ocupação da África provocou reações por meio de movimentos de resistência, que surgiram em todo continente e que apresentavam características próprias.

Ocupação da África

Na segunda metade do século XIX, iniciou-se na Europa um processo de intenso desenvolvimento tecnológico que promoveu grandes transformações no uso de fontes de energia, nas tecnologias de transporte, na comunicação, na intensidade da produção industrial etc. Esse salto tecnológico que aconteceu nesse período ficou conhecido como Segunda Revolução Industrial.

Uma das consequências diretas da Segunda Revolução Industrial foi o crescimento e fortalecimento do capitalismo. Esse fato foi responsável pela aparição do impulso neocolonial que levou as nações industrializadas da Europa a partirem em busca de novas colônias. Essas nações buscavam locais que fornecessem matérias-primas para garantir a continuidade do crescimento industrial e novos mercados para consumir as mercadorias produzidas.

O processo de ocupação do continente africano foi justificado pelos países europeus com o discurso da “missão civilizatória”. As nações europeias invasoras alegavam que levariam as benfeitorias da modernidade e da tecnologia para os locais “selvagens” da África. Além disso, parte desse discurso de “missão civilizatória” dos europeus incluía a cristianização dos povos africanos. Essa missão civilizatória era vista pelos europeus como um “fardo do homem branco”, considerado “superior”, enquanto os africanos eram vistos como “selvagens” e “inferiores”.

Essas ideias eram respaldadas por uma teoria da época conhecida como darwinismo social. Essa teoria baseava-se em uma leitura incorreta da teoria da evolução das espécies formulada por Charles Darwin. O darwinismo social defendia, portanto, a existência de raças humanas superiores a outras.

Movimentos de resistência

Com a chegada dos europeus, o início da ocupação da África não aconteceu de maneira pacífica. Diferentemente do que muitos pensam, surgiram em todo o continente movimentos de resistência que procuravam expulsar os invasores europeus ou, ao menos, reduzir a influência deles sobre o território.

O historiador Terence O. Ranger afirma que os movimentos de resistência aconteceram em praticamente todo o continente africano e com quase todos os povos, independentemente se possuíam ou não um Estado organizado e um poder centralizado|1|. O uso de armamentos mais modernos e o uso de melhores meios de comunicação foram muito importantes para consolidar a vitória dos europeus contra esses movimentos de resistência.

A seguir, conheça alguns movimentos de resistência à invasão europeia que aconteceram em diferentes partes da África.

  • Egito:

No início da década de 1880, o Egito possuía um governo controlado pelo Império Turco Otomano e estava sob uma crescente influência britânica. Nessa época, o país era controlado pelo quediva Tawfik (quediva era o nome do cargo instituído pelos otomanos que governavam o Egito na época). Em 1881, uma revolução foi realizada contra o quediva Tawfik e o crescimento da influência europeia no Egito.

Essa revolta ficou conhecida como Revolução Urabista e foi liderada por um general do exército egípcio chamado Ahmad Urabi. O quediva Tawfik foi deposto, e formou-se, então, um governo alinhado com os ideais do movimento urabista. No entanto, pouco antes de sua destituição, o quediva Tawfik havia solicitado a ajuda britânica.

Os britânicos, então, invadiram o Egito e atacaram Alexandria, uma das principais cidades egípcias, em julho de 1882. Esse ataque derrubou o governo urabista e resultou na ocupação do país em definitivo pelas forças britânicas. Com a derrota do movimento urabista, os movimentos de resistência no Egito enfraqueceram-se. Novas rebeliões na região só aconteceram durante a Primeira Guerra Mundial, e o país africano recuperou sua independência apenas na década de 1950.

  • Somália:

A Somália passou a ser gradativamente ocupada por Reino Unido e França em razão da sua proximidade com o continente asiático, principalmente com a Índia. Após passar pelo processo de unificação, a Itália também passou a disputar o controle da Somália. A disputa entre essas três nações procurava estender o domínio sobre esse país africano e expandi-lo para o seu interior.

Os chefes somalis organizaram inúmeros movimentos de resistência de pequeno porte enquanto o país era disputado por Reino Unido, França e Itália. Posteriormente, esses chefes tentaram minimizar essa presença europeia a partir de acordos e tratados diplomáticos. No entanto, essas ações não alcançaram o resultado almejado.

O principal movimento de resistência somali, segundo Valter Roberto Silvério, aconteceu com a liderança de Sayyid Muhammad Abdullah Hassan. Esse movimento de resistência na Somália foi iniciado em 1895, após Hassan convocar uma Jihad (guerra santa no Islã) contra a presença europeia.

A luta de Hassan estendeu-se até a sua morte em 1920, e, apesar de não conseguir expulsar os invasores europeus, seu movimento serviu de inspiração para novos movimentos somalis que surgiram anos depois reivindicando a independência. A Somália recuperou sua independência em 1960.

  • Madagáscar:

Durante a década de 1880, o Reino de Madagáscar era independente e era liderado pelo primeiro-ministro Rainilaiarivony, que estava no cargo desde 1864. Rainilaiarivony procurou promover um processo modernizador no país para desenvolvê-lo aos moldes ocidentais e, assim, garantir a soberania da ilha e afastar os invasores europeus.

A soberania malgaxe (termo usado para referir-se a tudo que é originário de Madagáscar) foi desrespeitada quando o governo francês, pressionado por grupos que defendiam a expansão da atuação colonial francesa na África, optou por invadir a ilha em 1883. Os franceses atacaram Madagáscar primeiramente na cidade de Tamatave (hoje essa cidade chama-se Toamasina).

O ataque francês levou a duas guerras contra o governo malgaxe que resultaram no seu total desmanche, na destituição de Rainilaiarivony e no fim do processo de reformas que estava sendo promovido no país. Valter Roberto Silvério afirma que a conquista francesa em Madagáscar foi facilitada pelas intensas transformações que o país enfrentava|2|.

Movimentos de resistência surgiram na sociedade malgaxe no começo do século XX, porém o domínio francês na região persistiu e Madagáscar obteve sua independência somente em 1960.

|1| RANGER, Terence O. Iniciativas e resistência africanas em face da partilha e da conquista. In.: BOAHEN, Albert Adu (ed.). História Geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880-1935. Brasília: UNESCO, 2010, p. 51-54.
|2| SILVÉRIO, Valter Roberto. Síntese da coleção História Geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013, p. 370.

* Créditos da imagem: Commons


Por Daniel Neves
Graduado em História

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