Eu lírico

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Eu lírico O eu lírico é uma criação de um escritor ou de um poeta. Através dele, o poeta imagina emoções e sentimentos
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DORME RUAZINHA… É TUDO ESCURO! ...

Dorme ruazinha…  É tudo escuro…

E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?

Dorme teu sono sossegado e puro,

Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos…

Dorme…  Não há ladrões, eu te asseguro…

Nem guardas para acaso persegui-los…

Na noite alta, como sobre um muro,

As estrelinhas cantam como grilos…

O discurso lírico é construído na primeira pessoa, por isso é muito comum confundir a voz do escritor com a voz criada por ele, o eu lírico
O discurso lírico é construído na primeira pessoa, por isso é muito comum confundir a voz do escritor com a voz criada por ele, o eu lírico

O vento está dormindo na calçada,

O vento enovelou-se como um cão…

Dorme, ruazinha…  Não há nada…

Só os meus passos…  Mas tão leves são,

Que até parecem, pela madrugada,

Os da minha futura assombração…

Mario Quintana

O poeminha que você leu agora é de autoria de um dos nossos maiores poetas brasileiros: Mario Quintana. Mario escreveu poemas para adultos e crianças, e neles podemos ouvir várias vozes que nos falam de muitas histórias, reais ou fictícias. Essas vozes geralmente são ditas por uma espécie de personagem do poema chamado de eu lírico. Mas será que você sabe o que é um “eu lírico”?

Comecemos nossa explicação a partir da palavra “lírico”, que diz respeito a um gênero de poesia que está muito relacionado com os sentimentos. Nesses poemas, cantam-se emoções e versos íntimos através de um eu lírico, que é quem se manifesta e expõe suas emoções e percepções sobre a vida e o mundo. Acontece que esse “eu” que dá voz ao poema nada mais é do que a criação de um poeta para apresentar as reflexões de um sujeito que discursa em primeira pessoa.

Por ser um discurso construído na primeira pessoa (eu), muitas pessoas acabam confundindo o eu lírico com o poeta que escreve os versos. Algumas vezes é o próprio poeta quem empresta sua história pessoal para o poema. É o que acontece no poema de Carlos Drummond de Andrade:

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Carlos Drummond de Andrade

O eu lírico no poema de Drummond cedeu lugar às memórias de vida do poeta, portanto, nesse caso, é correto afirmar que não se trata de uma personagem inventada para dar voz às emoções de quem escreve. É importante lembrar que o eu lírico é encontrado, sobretudo, nos textos literários, que são aqueles cuja linguagem é elaborada de maneira especial, nos quais podemos encontrar metáforas, figuras de linguagem e de construção, além de uma pontuação diferenciada. Nos textos literários, o universo imaginário salta das mãos de um escritor ou poeta, diferentemente do que acontece com os textos não literários, que não podem ser considerados Literatura. Viu só? Agora que você já sabe o que é um eu lírico, que tal ler alguns poemas para tentar encontrá-lo? Boa leitura!


Por Luana Castro
Graduada em Letras

Avaliação

10.0

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